Quando mudar é preciso

E num piscar de olhos… a vida aconteceu.

Parece que foi ontem, mas foi há três anos e meio.

Sentei no chão de porcelana fria da sala . Tinha 4 ou 5 caixas com livros e minhas câmeras de foto. Lembro do exato quadrado que sentei pra chorar na minha sala nova da casa recém alugada. Fazia eco na casa. Não tinha nada. Ou melhor, tinha muito, mas muito medo. E também tinha muitas lágrimas. E de brinde tinha uma voz que veio de fora dizendo “Você não vai dar conta. Não guardou dinheiro porque não quis , então só lamento por você.” A voz naquela época era soberana e parecia um decreto. Hoje é uma voz que se calou porque não tem a menor força e sentido pra mim . Mas naquela época aquilo era tudo que eu sabia.

Ai meu Deus como se chama a companhia de luz? Não faço idéia. E como vou comprar o iogurte no supermercado? Terei como pagar minhas contas? O que vai ser de mim? Ai coitadinha dela que não parava de chorar.

O chão de porcelana fria foi testemunha. De uma casa que foi montada talher por talher, prego por prego . Foi testemunha também de uma menina medrosa que virou dona de seu nariz. Ninguém disse que ser adulto é fácil. Pagar contas muito menos.

Mas dia a dia , as fotos da parede traziam as cores da vida nova. Um dia chegou um sofá colorido e depois uma estante colorida e depois aqueles amigos que eu nem imaginava que ia conhecer. Muitas idas a bazares porque tinha aquele armário pro banheiro e aquele quadrinho pra sala , e também tinha aquele móvel do mercado das pulgas que mandei fazer a medida .

E também tinha aqueles momentos de cozinhar risotto de funghi pros amigos. E tomar vinho até a madrugada dando risada.

E meu quarto também foi testemunha das muitas noites de solidão e choro compulsivo achando que o sofrimento não tinha fim. E Tugui que me fez virar mãe-solteira-de-cachorro . E isso era uma preocupação no começo, mas a verdade é que nunca morei sozinha , sempre morei com meu melhor amigo. Sempre juntos, sempre nos divertindo. Tugui foi sempre a alma desta casa e meu companheiro de todas as horas. As vezes eu ficava cansada de me sentir responsável por ele, mas não imagino uma vida sem aquele rabinho abanando e sem aquela bolinha de pelúcia dormindo no meu pé todas as noites.

Todo mundo que entrava aqui falava “nossa que good vibe tem a sua casa” , “parece casa de bonecas”, “que legal a sua decoração”, “que lindo seu apartamento”… demorei a perceber até que montei uma linda do tempo na parede do meu quarto com todas as viagens que tinha feito desde que me mudei.

Amanhecia olhando pra cordilheira dos Andes, amanhecia em Veneza, via o por-do-sol em Jericoacoara , me via deitada num deserto de sal na Bolívia. E com minhas fotos o meu quarto tinha vista para o mundo. Era bom acordar nele e ver o caminho percorrido.

A casa também foi testemunha de noites felizes. De sorvete delivery com filminho na TV. De tardes preguiçosas de sono. De dias de faxina . De noites tranquilas.

Minha sala sempre foi um lugar incrível. Podia passar horas sentada no sofá olhando pra janela em silêncio. Sim, amigos , eu faço silêncio por incrível que pareça . E naqueles dias em que o stress me consumia era no meu buncker particular que eu recuperava minhas forças pra que o telefone tocasse com alguma boa notícia.

A vista da varanda era o lugar preferido das visitas e dos fumantes porque graças a Deus minha casa nova não fedia a cigarro. As plantas coitadas foram bem pacientes comigo porque não nasci muito pra jardinagem mas ninguém é perfeito né?

E nos dias que eu chegava muito mal em casa rolava um banho de espuma na minha banheira e eu me achava “ryca” por 40 minutos.

A parte mais legal da casa é que o chão esquentava então o inverno nunca me abalou porque sempre vivi a 40 graus.

O bairro continua sendo meu favorito. Comprar carne no açougue e verdura na quitanda. Conhecer todos os comerciantes. Pedir remédio pro seu farmacêutico . Buenos Aires é sempre tão pessoal. Levar o cachorro pra passear enquanto ele cumprimenta o cachorro dos vizinhos. Parece cidade do interior. E moro há duas cuadras da minha rua favorita de toda Buenos Aires.

Um dia comecei a achar que não precisava mais da minha casa. Era linda, mas levar essa vida me impedia de fazer outras coisas que estavam pedindo por mim.

E se eu abrir mão disso? E se eu resolver ser a Elizabeth Gilbert das Américas? E tudo que me vinha a mente era a cena do filme onde ela guarda os móveis numa bauleira pra poder partir. E se eu fizer isso? E se? Ai que medooo . E se??? E foram muitos “se” até que veio a decisão.

Acho que vou me mudar… (dizia o equilibrista)

Pai e mãe o que vocês acham?

Tudo bem filha, se não der certo você começa de novo. Estamos aqui. (Feliz de quem tem pai e mãe porque isso foi música para meus ouvidos. Aproveitem seus pais enquanto eles estão aqui)

Gente, mas com assim você não vai ter casa? Como assim você vai largar tudo?

Largar o que?

Metade ficou espantada . A outra metade falou mal. Mas aqueles que realmente me conhecem e gostam de mim disseram : Nossa mas nada é mais a sua cara do que fazer isso! Já deu certo. Vai com Deus. Pode contar comigo.

E assim criei um novo medidor de amigos verdadeiros.

Se mudar implica muitas coisas . Limpeza, desapego , ordem… e isso vale pra objetos e pra pessoas. Se mudar pro mundo é uma experiência interessante e só poderei contar pra vocês como é depois de me jogar nessa vida nômade.

Hoje passei o dia encaixotando minhas coisas porque amanhã vem o caminhão da mudança . Já vivi outras mudanças na vida , mas essa não foi nem por estresse , nem por separação, nem por pressão. Foi por DECISÃO.

Coloquei umas músicas boas, comecei a arrancar cada prego da parede e até saiu casquinha , a casa está toda marcada! Uma vida passou por aqui.

Fui inventando uma caixa pra cada coisa. Mamãe veio me ajudar. Tugui nos olhava meio confuso e fazia xixi nas caixas.

No final da noite eu não tinha mais onde enfiar tanta tralha . Eram muito , mas muito mais do que 4 ou 5 caixas. Aliás , essas caixas que eu trouxe eram livros que doei. Portanto tudo que tinha agora foi construído nesses três anos e meio de vida. Uma casa, muitos objetos, uma vida muito interessante que agora fica pra trás para dar lugar ao novo.

Foi preciso coragem pra sair da minha zona de conforto e embrulhar de novo aquilo que um dia coloquei na parede ou na estante com tanto carinho. Porém , minha alma nunca esteve tão certa de que esse era o movimento necessário pra ir ao encontro da vida que me espera lá fora.

Obrigada casa linda por ter me dado tanto e por ter sido testemunha.

Obrigada Deus. Obrigada Vida.

Sou grata. Vamos embora.

“Apronto agora os meus pés na estrada.

Ponho-me a caminhar sob sol e vento.

Eles secam as lágrimas,

Vou ali ser feliz e não volto.”

Buenos Aires, 28 de janeiro de 2017.

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